domingo, 23 de abril de 2017

Entre a Madame e o Marquês

Marguerite Burnat-Provins, La confiance, 1926, Lausanne.


19:00h – Arredores do Castelo Silling, França: Aproximava-se ainda sombra, embora o contorno do vestido já permitisse perceber suas curvas.  A lua cheia a projetou, magnífica, encouraçada na sua palidez, cabelos de um castanho vivo, e ombros nus. Vinha em sua direção, voluptuosa, tal qual entre suas pernas se afirmava o efeito de tal poder. Quem seria a dama, que rompendo a linha do tempo mandou-lhe aquele bilhete, marcando um encontro com ele, o Marquês?
Aproximou-se, e sentou-se ao lado de Donatien. Olhou-o bem, na face, como querendo estudá-lo, interpretá-lo, percebê-lo pelas feições. Alguns segundos sem palavras, apenas contemplando-o, enquanto o olhar dele recaía fixamente pelo seu decote, e um sorriso quase perverso, subia-lhe à face...

 - Emma Bovary, senhor, é o meu nome. Percebo este não ser o detalhe pelo qual mais te interessaste, caríssimo. Mas vim aqui dizer-lhe o quanto me engrandeço com tuas obras. Elas são persuasivas, porém livres. São de amores fugazes, porém amores capazes de nos pertencer... E são esses amores que nos faltam, no tempo de onde venho...

Subitamente o Marquês levantando o olhar ao rosto de Emma, agarrando suas mãos e beijando-as de um modo delicado (até não condizente com aquela perversidade inicial) fazendo-a propositalmente senti-lo mais intensamente, pelos lábios meio umedecidos, interrompeu:

 - Emma, já me deste prazer no simples ato de conhecê-la (pronunciava enquanto abria as pernas para se fazer perceber excitado), que direi então da possibilidade de outros atos (fez-se rir). E segurando uma rama, continuou: Sabe nobre Senhora, posso sentir o mesmo orvalho que desce por esta folha...descendo entre tuas coxas (e subia-lhe o vestido, mantendo a aproximação facial, e a respiração incontida). Imagino o gosto, e vejo nos teus olhos que imaginas o meu saborear, tal qual o solo imagina, quando beija a gota que nele cai. Única. E absorvida, como única.

Com uma naturalidade que parecia lhe ser pertinente, Emma fixou os olhos nos olhos de Donatien:

- Senhor, na minha época, és conhecido como o “sádico”. E esta palavra te pertence. Tu virastes qualificador, e substância manifesta no corpo de quem te lê. Inclusive no meu, quando da minha percepção de sexualidade contida. Castrada. Frustrada, pela insatisfação das rédeas que me significaram  um casamento... 

Novamente, de súbito, o Marquês a interrompe em voz alta, levantando-se, e se colocando entre as pernas de Emma, que permanecia sentada, e cujos ombros se deixaram ser tocados:

- A masturbação... é sublime!! Não concordas, minha dama? Podes sentir os dedos, como queres, e como imaginas querer. Conhece-te, então, a ti mesmo, tal qual sugeriu o sábio filósofo. E o que dizer da língua passageira, que harmoniza e prepara o caminho às concupiscências da carne? À apologia da penetração. Do gozo. Do aperto provocado pela vagina que contraí o membro que a adentra. Que quer abri-la e dilatá-la. Sem deixar de ser...apertado! Ah!...que contradição! Mas de que vivem os seres humanos, senão das suas contradições? Como agora, enquanto meus dedos subduzem nas tuas vestes e tu me negas a passagem, ainda que desejando ver o meu bilhete, a viagem, e o destino. Ah! Girar a roleta, e deixar-se abrir! As flores na primavera ensinam - Dito isso, recuou Donatien, voltando a posição inicial do encontro, enquanto Emma respirou profundamente antes de dirigir-lhe novamente a palavra:

- Todos sentem desejos. Vontades inexplicáveis que só a libido explica em sua razão. Louca. Mas por que tantos as reprimem? E nos fazem passar por loucos, quando o verdadeiro desvario é se assumir o que não se é. De que me vale essa moral e essa ética enquanto valores de uma mulher livre, quando apenas me acorrentam?

O marquês, com ar de concordância, se pôs a contento em complementar:

- Negar o empirismo primata daquilo que move o mundo é típico. Típico dos que abominam suas fantasias mais sórdidas. Por tê-las como sórdidas. O melhor senso é aquele que é bom, tal qual uma bela cavalgada. Ou se preferires, num encaixe fulminante por trás. Se estás confusa, aproveites da confusão deixando-a que a guie, e não que a repreenda (disse o marquês tomando a mão de Emma e conduzindo-a a acariciar-lhe as partes). Percebes? Sem obstruções, o orvalho toma sentido. Torna-se nosso. E todo o senso, sensual...

Emma sentiu o Marquês umedecido, e a ela própria no mesmo estado. Pelo mesmo líquido. E sentiu aquele fluido se espalhar pelo seu corpo, escorrendo entre as pernas e ao mesmo tempo se estendendo cintura acima. Um cenário se dissolvia e outro surgia como uma mudança de paisagem ao por do sol. O barulho era dos botões daquilo que vestia, sendo desapertados por uma desconhecida... e dos cochichos, que embora próximos, ainda estavam longes. Porque Emma estava longe, e retornava. As mãos trepidavam... no enlace do frio e do suor. Se esvaía, momentaneamente, a febre. Um cheiro forte de álcool... e Emma voltava a si, no seu leito. Espasmódica, trazia consigo o Marquês, naquele quase orgasmo que acabara de ser interrompido. Para ela, seria cura.  


No canto esquerdo do quarto, próximos ao que parecia ser uma pequena janela, os vultos de alguns visitantes puderam ser percebidos. E ao tomarem forma, ela viu aquelas pessoas perplexas se entreolharem. Tentavam fingir, em uma discrição péssima, que não a fitavam involuntariamente. “Eles coisa alguma entenderam, que não dessem por delírios” – pensou...e sorriu.

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