
Aproximou-se, e sentou-se ao lado de Donatien. Olhou-o bem, na face, como querendo estudá-lo, interpretá-lo, percebê-lo pelas feições. Alguns segundos sem palavras, apenas contemplando-o, enquanto o olhar dele recaía fixamente pelo seu decote, e um sorriso quase perverso lhe subia à face...
E- Emma Bovary, senhor, é o meu nome. Percebo este não ser o detalhe pelo qual mais te interessaste, caríssimo. Mas vim aqui dizer-lhe o quanto me engrandeço com tuas obras. Elas são persuasivas, porém livres. São de amores fugazes, porém amores capazes de nos pertencer. E são esses amores que nos faltam, no tempo de onde venho...
(subitamente o Marquês levantando o olhar ao rosto de Emma, agarrando suas mãos e beijando-as de um modo delicado - fazendo-lhe propositalmente senti-lo, pelos lábios meio umedecidos, interrompeu...)
M- Emma, já me deste prazer no simples ato de conhecê-la (pronunciava enquanto abria as pernas para se fazer perceber excitado), que direi então da possibilidade de outros atos (fez-se rir). E segurando uma rama, continuou: Sabe nobre Senhora, posso sentir o mesmo orvalho que desce por esta folha...descendo entre tuas coxas (e subia-lhe o vestido, mantendo a aproximação facial, e a respiração incontida). Imagino o gosto, e vejo nos teus olhos que imaginas o meu saborear, tal qual o solo imagina, quando beija a gota que cai. Única. E absorvida, como única.
E- Senhor, na minha época, és conhecido como o “sádico”. E esta palavra te pertence. Tu viraste adjetivo, e substantivo manifesto no corpo de quem o lê. Inclusive no meu, quando da minha percepção de sexualidade contida. Castrada. Frustrada, pela insatisfação das rédeas que me significaram um casamento... (novamente, de súbito, o Marquês a interrompe em voz alta, levantando-se, e se colocando entre as pernas de Emma, que permanecia sentada, e cujos ombros se deixaram ser tocados).
M- A masturbação é sublime!! Não concordas, minha dama? Podes sentir os dedos, como queres, e como imaginas querer. Conhece-te, então, a ti mesmo. E o que dizer da língua passageira, que prepara o caminho às concupiscências da carne? À apologia da penetração. Do gozo. Do aperto provocado pela vagina que contraí o membro que a adentra. Que quer abrí-la e dilatá-la. Sem deixar de ser...apertado! Ah!...que contradição! Mas de que vivem os seres humanos, senão das suas contradições? Como agora, enquanto meus dedos subduzem às tuas vestes e tu me negas a passagem, ainda que desejando ver o meu bilhete, a viagem, e o destino. Ah! Girar a roleta, e deixar-se abrir! As flores na primavera ensinam. (dito isso, recuou Donatien, voltando a posição inicial do encontro).
M- Negar o empirismo primata daquilo que move o mundo é típico. Típico dos que abominam suas fantasias mais sórdidas. Por tê-las como sórdidas. O melhor senso é aquele que é bom, tal qual uma bela cavalgada. Ou se preferires, num encaixe fulminante por trás. Se estás confusa, aproveites da confusão deixando-a que a guie, e não que a repreenda (disse o marquês tomando a mão de Emma e conduzindo-a a acariciar-lhe as partes). Percebes? Sem obstruções, o orvalho toma sentido. Torna-se nosso. E todo o senso, sensual...
Baruho de botões sendo desapertados. E as mãos... e o frio... e o suor. Se esvaía a febre. Cheiro de álcool... e Emma voltava a si. Rindo e trazendo o Marquês consigo, em mais um orgasmo que acabara de lhe ser tomado. Olhou para os lados, focando um caderno. Se esforçando muito, o pegou. Havia todas as folhas. E havia pessoas ali. Mas não houve bilhete...
E- Esse foi o melhor de todos. O melhor de todos... vocês. E vocês, hipó(...)critas (pronunciou bocejando na sílaba tônica) não sabem...
O riso, como que congelado num dos cantos da boca. A respiração se normalizava. E ela dormia, novamente.












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