quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Alice no país das maravilhas (do cotidiano que não se mostra)



Parecia que estava dormindo, ou perto disso. Depois, lembrava que havia seguido aquele coelho esquisito que carregava um relógio e lamentava enlouquecido um possível atraso. Daí, foram exatos 11 segundos de queda livre e Alice estava ali, naquele lugar indizível. O azul era mais azul, o vermelho era mais vermelho. As cores, todas elas, eram mais coloridas. Até o sol era mais sol! Flores, pomares, hortas, floresta, um lago enorme e um rio. Tudo parecia se fundir como um único conjunto, ao mesmo tempo em que cada qual guardava seu caráter especial. Os pássaros, esquilos, micos, insetos e formigas eram vários dos bichos que ali interagiam. Tudo ali era de todos. E todos eram de tudo.
No meio ao campo, onde a grama era mais baixa (mas não menos verde que o verde mais verde que já vira), o coelho sentava acomodado. E junto com ele um rato, um lagarto, um gato risonho, uma lebre que tomava chá, e um.... um... valete de copas que andava! Todos escutavam atentamente um velho de chapéu, cujos movimentos eram bastante engraçados e ágeis pra um senhor daquela idade.
Mais engraçado que isso, era o fato que Alice se aproximava deles, mas não era vista. Os tocava, e eles pareciam sentir apenas a brisa que disseminava poeira, folhas e sementes. Ela também não os compreendia. Falavam num dialeto que desconhecia. Tentou gritar, mas não a escutavam também. Era como se estivessem numa redoma, em meio ao meio. Ela conseguia interagir com tudo ao redor (escutava, tocava, sentia), menos com aquilo. Menos com aquela cena. Alice apenas via.
Por um instante, lembrou-se da sua gatinha de estimação, e desejou que estivesse ali. Sussurou baixinho: "onde está minha gata..." . Nesse momento, o rato pareceu enxergá-la e se assustou, escorregando, e caindo por trás das pedras onde se apoiava. Logo em seguida, ele voltou a posição em que estava, e Alice constatou ter se enganado a respeito de sua percepção.
De costas pra todos eles, ela contemplava o lugar. Sentia uma doçura como jamais sentira. Uma ternura peculiar. Um amor, como se pudesse ver a forma do amor, e tocá-lo. Novamente lembrou da gata, e desejou que estivesse ali também. Junto dela...
Foi quando, abruptamente, sentiu-se sem fôlego. A brisa se tornara um vento mal, que sugava todo o ar pra si, não a deixando respirar. O Sol foi engolido por uma nuvem muito escura. Mais escura que o escuro que até então conhecia. Quase que instintivamente virou-se, e imediatamente se assustou. Todos aqueles que não a viam, nem a ouvíam, agora, fitavam-na. Todos, com o mesmo olhar. Maligno. Um olhar, de todos. E de um. Quando o chapeleiro falou: "Percebes? Ver o que se come não é o mesmo que comer o que se vê!!" - e riu, pervesamente, ao tempo em que todos os outros o acompanharam, num coro uníssono: "Pisque Alice. Os olhos. É hora de piscar!"
E o que viu foi seu estremecer contínuo no chão. E o que sentia era dor. E o suor que exalava parecia sangue, como se cada poro fosse uma ferida aberta. A sua gatinha, deitada na quina da porta de seu quarto, olhava, e apenas olhava. E o peso daquele homem sobre ela. Velho, forte, gordo, de um fedor insuportável que, forçadamente, se fundia ao seu cheiro. E assim que o seu padrasto se satisfez a esmurrou no rosto, levantando-se, virando as costas, chutando a gata, para enfim bater a porta do quarto. O último som foi o da chave girando.
Alice tinha 11 anos quando pensou: "Tenho um pai drástico. Seria um padrasto, não fosse o fato de ser o monstro que me come viva. Me deixando viva, e com defeito. Ao menos me matasse. E eu teria o orgasmo, de ver minh'alma sem feridas. Livre. Com hímen e tudo..." Chorou baixinho. Suas lágrimas eram por si mesma. E chorou mais. Baixinho, até dormir...E quem sabe acordar, ao invés de ser "acordada"...novamente...

9 comentários:

Rafa... disse...

...
Nó na garganta,faltam as palavras;sentimentos mistos.Monstruosidade.
Eu sinceramente não sei;Disturbios?!
Se não existe cura cientificamente,oq se faz com todos eles,mata?
*Só quem dá a vida,pode tirar...aprendi isso,ao longo dos anos.Mais e aí?

??????????????????

"famílias" ter ou não tê-las?!

Eu continuo não sabendo me expressar sobre tal assunto.

HORROR DE VIDA E DE DIAS ATUAIS!

Rafael sem h disse...

Alices, Marias, Madalenas, Arnaldos, Ramons... quantos já reviveram a história que não cala, mas que ninguém diz? O que se denuncia é uma amostra mínima dessa bizarrice que se une ao cotidiano, querendo tomar pra si a característica de ser comum...

A morte não é a punição, eu penso. E pela fé que acredito, creio que pra certos crimes... a morte só inicia a punição.

Mas devem pagar segundo as leis com certeza! E levar uns murros e uns pontapés da vizinhança até predominar mais roxo que a cor da pele! (n dá pra segurar!)

Ane Lopes disse...

Medo mano D:

To louca pra assistir o filme, e ouvir a música que a Avril fez pra ele *-*

:*

Alice em seu país disse...

Texto surpreendente.
Silêncio doído (do-ido: esse país de cores melhores que se desfaz)

Elandia Duarte disse...

Muito bom Rafa!
Muito bom mesmo!

Causa a surpresa dolorida que um bom texto cru tem que causar!

Yuki disse...

cralho no começo da história fikei tão feliz ^^, lembrava de minha infância, mas com o desfecho.... :(
caramba me senti no lugar de Alice...
e imaginar que nesse momento há tantas alices por aí tendo sua infância destruida :~~~~

mas um texto massa viu?!!!

Isabel disse...

Um contidiano que geralmente se mostra, mas muitos não o vêem.. ou não o querem ver.

Isaac Linhares disse...

Nossa, cara... Virei leitor desse blog faz pouco tempo. É um dos melhores textos! Muito bom! Mistura realidade repreendida com contos de fadas! Muito bom!

Rafael sem h disse...

Opa Isaac!

Valeu o comentário e o elogio. Postei a continuação de "Alice"... pois tbem penso que ficou interessante essa fantasia disney tão impregnada de realidade.

Fica a vontade pra interagir, tecer impressões, opinar, discordar, enfim...Sinta-se livre.

Valeu.
; )