domingo, 6 de dezembro de 2009

Fora de foco



As imagens fotográficas são retratos da realidade nas quais tentamos apreender a totalidade do real, mesmo sabendo ser impossível alcançá-la, pois tudo o que conhecemos, inclusive o próprio conhecimento, guarda dentro de si um princípio de inacabamento e incerteza. A totalidade está numa construção constante e inesgotável. Como afirma Adorno (apud Morin, 1996) "a totalidade é a não verdade". Compreender o total seria reduzí-lo ao erro. As fotografias não devem ser entendidas como reflexos do real, mas como traduções dele, e também não se fazem leituras reducionistas da realidade, pelo contrário, podem até representar a nossa ruptura com modelos esteriotipados desde que, para compreendê-las, enveredemos por um caminho impregnado pela complexidade, comunicação intersubjetiva e indeterminação. As fotografias podem ser, didaticamente, possibilidades de conhecer sobre o conhecer.

Focault (1987) afirma que a história da verdade tem sido a de sua imposição e a noção de saber é correspondente a poder e história. As imagens podem ser (e devem ser) pontes para o alcance deste entendimento, ou seja, o que vemos não é tão somente produção de verdade, como também é um exercício de poder que se firma numa construção discursiva.
Podemos (e devemos) trabalhar as imagens atentando que "o mundo dos fenômenos só existe na medida em que aparece para nós, e de certa forma, participamos dessa construção" (Kant apud Aranha e Martins, 1993: 113). Se nós participamos desse construir é necessário dialogarmos com nós mesmos, estimulando uma comunicação que nos amplie enquanto seres humanos, onde a ordem e a desordem, a razão e a paixão, o objetivo e o subjetivo convivam como antagônicos complementares e sejam simultaneamente construtores da realidade, a dualidade no seio da unidade.

As fotografias são caminhos cognitivos. Nosso modo de olhá-las, percebê-las e pensá-las revela nossa estrutura de raciocínio pessoal-social. Para uns, elas podem estar tão escuras a ponto de que nada se enxergue. Para outros, elas podem estar nitidamente firmes no papel, ou ainda um tanto embaçadas. São verdadeiras ferramentas na prática do raciocínio em suas múltiplas possibilidades de relacionar-nos ao objeto. São imagens fotográficas, mas não apenas isso por si só, pois são caminhos para a descoberta de uma essência dinâmica a partir do momento em que somos capazes de controlar o foco e enxergar para aquém e para além do que está sendo mostrado. Não são obrigatoriamente conhecimentos fragmentados, mas são fragmentos de conhecimento, cujos limites, estão no sujeito que as observa.



Bibliografia referenciada e relacionada:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. 2° ed. São Paulo, 1993.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro : Forense Universitária, 1987.
JAPIASSU, Hilton. A crise da razão e do saber objetivo: As ondas do irracional. São Paulo: Companhia das letras, 1996.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 2° ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.

Um comentário:

Fernando DF disse...

Muito bom, sem elas não temos foco e nem memória.
Feliz 2010.