domingo, 25 de janeiro de 2009

O Mistério da Crisálida



O mundo é da linguagem. E a minha língua fala além da carne, quando pode. Quando se abre algo além do que já se abriu, e se atravessa.
As pessoas costumam ficar.
Contentam-se em ser (estar/ significar) fotografias de alguns instantes. Abstrações. De risos, de toques, de laços e intenções. Que no outro dia ficam iguais, depois distantes, e mais além, distantes demais.
As aparências fazem esquecer que o mar, no fundo, é um deserto. E quase todos são (estão/ significam) borboletas alfinetadas em pequenos quadros de isopor. Mortas e colecionáveis. Pressurosas, vítimas do veneno das flores mais vistosas.
Tocam-me. E retocam o mais profundo da minha... pele. Contentam-se com o miasma.
Assim, dou-lhes o que lhes bastam. Um tubo digestório com boca.
E bem guardado, aqui, mantenho uma crisálida. Com um mistério dentro dela.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cândida



Almas saturadas de jazz exalam feromônios de improviso. Acordes de Sodoma e Gomorra. Pessoas confundidas, fundidas. Brilham que ardem, no seu próprio brilho. A beleza do grotesco é o verso ao (no) avesso. Calígula bem que tentou. O tédio bem que dissolve, a solidão bem que evapora. Mas por que tudo volta petrificado depois? Calígula, o tédio, e a solidão? Restam subsídios para os contos do Marquês.
Vaza rasgando a carne. Dilacerando as calças. Soberba e devassa. Libido.
Assobio de febre, sonho colorido, vista preto e branco. Do sexo, sementes de amor estéril.
Vitrola, vinhos finos, sangue engrossa no suor. Do grude, índigo néctar.
A menina da esquina guarda dor e ódio - Vende-se. Surta e... acalma. Ainda há boas lembranças nas nuvens de beque. E bares onde tomar as providências.
Mais nobre que qualquer pôr do sol, é o sol quente do meio dia. Mais cruel, mais sincero, que bonito.

domingo, 18 de janeiro de 2009

É isso.



Eu já te observo há algum tempo. Olhando, e em pensamento. Não apenas você. Eu me observo te observando também. Intensa, sem limites. Testa. Quer saber se pode. Se mostra forte, sem apego. Você não usa "talvez". Afirma ou nega. Mas o sorriso e o olhar (principalmente o olhar) são cheios de "talvez". "Talvez" é medo. Medo de sentir. De depender de sentir. Acho que as vezes você até pensa: "E se não for dependência, e for algo bonito, compartilhado?". Mas você só pensa...e guarda as possibilidades. Por isso grita, empurra, escarra, extravasa. Mas até se defendendo, se fazendo de fútil, você é linda.
Meio autobiográfico te observar...
Tenho vontade de te beijar. Mas e se não for vontade de te beijar? E se for algo como querer encostar nos teus lábios, e te acariciar, te respirando? Guardo as possibilidades...
Eu te observo. E sinto que estamos de ponta cabeça um pro outro. É só você virar...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Da minha janela



Nem sei bem o quanto de espaço tenho, mas vai além do Universo inteiro e de qualquer expectativa. Dentro dos meus olhos cabe o que eu vejo, o que eu penso, e imagino. Cabe a vontade, o prazer, o desejo, a angústia, e os enlaces. Cabe a mim, sem rejeitos nem censura. Eu gosto de quando estou aqui, e de me afogar em mim mesmo. Na saliva, quando dá água na boca. Nas lágrimas, quando condenam. Nos líquidos que excitam (e incitam). Porque não há gosto que venha de fora. Nem cheiro. De dentro dos olhos é uma alma só, viva, que respira de dentro pra fora...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meio F(r)io



O acorde que se conhece,
é dedilhando que se aprende,
se o teu medo te desfalece,
é a si mesma que repreendes.

Seria bonito... Nosso amor seria.
Um amor sem fôrma.

Teria dito... Nosso amor teria.
De uma outra forma.

Eu me arrisquei. Por isso.
Pelo futuro.
E eu te risquei. Por isso.
Pelo futuro... do pretérito.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

De sol vemos



O sol perderia o céu,
se o sonho chegasse lá,
do tédio faria mel,
tintura de desenhar,

tão doce, que do amargo,
pintasse pela janela,
a lua em sombreado,
teus cachos, em torno dela...

Mal trago, bem trouxe...



se morrem as flores,
no raso do ser demente...

(Eu trago,
Tu tragas,
Ela traga,
Nós tragamos,
Vós tragais,
ELAS tragam.)

que se plante estrelas,
no vaso do céu da mente...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Feliz Ano (de) Novo



Contradição. Em nome dos velhos costumes feliz ano novo soa tão estranho. Tudo o que precisa ser melhorado, individual e socialmente, se esquece e... fica pro ano que vem (de novo?!). O que não pode passar despercebido são os presentes, os sorrisos, a família unida, e a perfeição de um conto de fadas que só existe um dia por ano. Porque no natal sempre fica no "quase". Ainda se nota a desconfiança nos olhares, cada qual com seu escudo armado, criticando em pensamento ao tempo em que sorri pra você. Mas virada de ano é diferente. Os personagens ganham alma, e substituem os próprios atores e atrizes. A falsidade não é a mesma. Ela é autêntica até a meia noite. Até quando os fogos anunciam o fim da magia. As carruagens desaparecem, os vestidos rasgam, e não há mais véu.

O primeiro dia, do novo ano, amanhece... da mesma velha forma.